Análise da eleição presidencial

Análise da eleição presidencial

Moura (Alentejo, Portugal) – Foi a mais estranha eleição que houve no Portugal democrático, não só pela pandemia em curso, mas também por ser a prevista reeleição do presidente Marcelo, depois de uma campanha quase inexistente, nitidamente pessoal, sem motorista, nem seguranças, e, principalmente, por ser transversal a todos os partidos clássicos, sem ter a participação de qualquer um deles, apenas alguns apoios pessoais verbais. Segundo as suas próprias palavras, a sua campanha foram os seus cinco anos de presidência, que lhe deram um claro e grande apoio popular (ganhou em todos os concelhos do país, coisa inédita). Mas engana-se quem pensar que o seu segundo mandato vai ser semelhante ao primeiro, por motivos óbvios, relacionados com a crise sanitária-político-económico-social em que vivemos. Posto isto, a análise, que aqui me proponho a fazer, tem de passar para os outros candidatos, pouco interessando quem foi o segundo mais votado, o qual é o primeiro dos perdedores, nada mais.

   Eduardo Batista, um desconhecido tenente-coronel, conseguiu a proeza de, não sendo formalmente candidato, ter o seu nome nos boletins de voto. E, assim, expôs ao ridículo as instituições políticas nacionais, mostrando-nos que o sistema vigente se converteu num absurdo, por estar caduco, refém da sua própria burocracia e enquadrado por leis bizantinas, que nada têm a ver com o nosso tempo. Fica a lição que ser-se anti-sistema não é forçosamente gritar acusações populistas, como o fêz André Ventura, pela direita, e Marisa Matias, pela esquerda, esta tendo mordido a isca que lhe foi lançada, a dos “lábios vermelhos”, desacreditando-a. Paulo Maluf, uma velha raposa da política brasileira, disse: “Falem bem, ou falem mal, de mim. O que me interessa é que falem e criem polémica sobre o que digo”. Ventura soube fazer isto muito bem. Criava frases fortes, contra tudo e todos, sendo que as consequentes polémicas, inclusive na mídia, lhe deram um tempo de antena maior do que aos outros. Os seus debates na TV foram os que tiveram maior audiência. Enquanto a esquerda tiver como tema principal da sua agenda o combate ao Chega, de Ventura, mais o Chega se beneficiará.

   Marisa Matias e Tino de Rans, embora por motivos diferentes, perderam a frescura da novidade e não conseguiram repetir as proezas da eleição anterior. O seu tempo passou, sendo mais preocupante o caso de Marisa, candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda (BE), o qual parece ferido de morte, por ter integrado a famigerada “geringonça” e agora falar como oposição ao atual governo, mas acabar viabilizando o que o governo tem de pior, sem coerência alguma, o que deve ter contribuído para uma grande fuga, de habituais votantes no BE, para Ana Gomes. Nesta mesma situação, mas mais coerente, se encontra o PCP e, talvêz por isso, João Ferreira tenha mantido, aproximadamente, o eleitorado do candidato do partido de cinco anos atrás. Esperava-se que ele melhorasse esse resultado, o que não se deve a Ventura, mas, sim, porque João Ferreira (assim como Marisa Matias, mais este problema para ela) tem, hoje, uma imagem burguesa, longe daquela imagem de povo, que lhe deu os votos necessários e suficientes para ser deputado europeu. As roupas de griffe (nunca repetidas), os tablets e telemóveis de última geração, etc., com que se apresentava, tiraram-lhe muitos votos, que migraram para Ana Gomes. Quando o problema do povo é o dia a dia, nada lhe interessa como “horizonte de esperança”, pois pode não sobreviver até lá.

   Ana Gomes, descontente com o seu partido (PS), candidatou-se como voz da esquerda democrática e europeísta, de forma independente, o que tem mérito, concorde-se, ou não, com ela. Mas a ala esquerda dentro do PS é menor do que ela pensava e, para ter a relativamente boa votação que teve, precisou de receber os milhares de votos que fugiram de Marisa Matias e de João Ferreira, como aqui já citado, mais alguns votos do PAN (que lhe declarou apoio) e de outros partidos nanicos. Com tal mistura ideológica (temporária, pois voltarão aos partidos de origem) e com poucos apoiantes dentro do PS, o futuro político de Ana Gomes não parece brilhante. O seu tempo deve-se ter esgotado nesta eleição.    Resta analisar Tiago Mayan, que teve o mérito de deixar de ser um desconhecido e de sempre colocar a teoria liberal dura, para resolver tudo. Acontece que não estamos mais no séc. XX, que nos mostrou muito bem que o liberalismo tem limites, devendo conviver com soluções públicas, na política, nas instituições e nas empresas. Repetiu, aproximadamente, a votação (nas legislativas) do partido que o apoiou (Iniciativa Liberal), o qual não está morto, mas também não tem muito espaço para crescer. Quem realmente cresceu, e muito, foi o Chega, de Ventura, um fenómeno