A pandemia também tem algo de bom

A pandemia também tem algo de bom

Lisboa (Portugal) – Estou escrevendo isto no dia 27 de Dezembro, o dia que a União Europeia (UE) quer declarar, para o futuro, como sendo o “dia europeu de vacinação” (anual?…, ninguém sabe ainda quanto tempo ficará com o efeito da vacina COVID no seu corpo, depois de vacinado), e olhando na TV o “show off” das primeiras vacinações COVID em Portugal. Aglomeração de gente (políticos e não só) no local de aplicação das vacinas e corredores de acesso, sem respeitarem o “distanciamento social”, ávidos para aparecerem nas televisões, todas filmando o mesmo “grande acontecimento”. Pelo menos estavam com máscaras, mas a enfermeira, que aplicou essa primeira vacina, fê-lo sem luvas…!!! Sábio povo o nosso: “Bem prega frei Tomás, faz o que ele diz, não o que ele faz”.

   No entanto, temos de elogiar o que a UE fêz, para que todos os seus 27 países, independentemente de serem ricos ou pobres, tenham (ao longo de 2021, talvêz entrando em 2022) as vacinas suficientes para obterem a sua “imunidade de grupo” e, mais importante, sem as pagarem (o custo foi suportado pelo orçamento da UE). Esta foi a lição de união que se originou no que aconteceu, de mal, no início da pandemia, quando cada país correu para comprar ventiladores, máscaras, batas, luvas, camas para CTIs, etc. e se atropelaram uns aos outros. Contratos firmados foram desonrados, sempre que um país mais rico pagava um preço maior ao quase fornecedor único, a China, que mandou “às favas” a ética e a honra, entre outros episódios dignos de filme policial (desvio e roubo de contentores com esses materiais e equipamentos de segurança sanitária, em aeroportos teoricamente insuspeitos, etc.). Desta selvejaria do anterior “salve-se quem puder pagar”, surgiu agora esta atitude da UE, verdadeiramente comunitária.

   No início da pandemia o presunçoso governo português, que dizia estar preparado para tudo, demorou demais a comprar o necessário e, quando o decidiu fazer, como a procura era muita, pagou muito mais caro (até ao triplo do valor) tudo e, por exemplo, teve de pagar adiantado os ventiladores que contratou comprar à China. Nunca vieram no prazo (até hoje nem todos chegaram cá) e muitos vieram incompletos, além de virem com manuais para operação em mandarim… Volto à sabedoria popular, pois foi um “negócio da China”, mas para os chineses, não para nós. Lembro isto, do passado recente, para concluir que, se não fosse a UE, até hoje não haveria vacina alguma, no mercado internacional confiável, disponível para aquisição por Portugal. Teríamos de nos contentar com as vacinas russas e chinesas, não certificadas, como está acontecendo com países do terceiro mundo, incluindo o Brasil.

   Finalmente, quero louvar um outro facto inédito que aconteceu, no caminho para a vacinação. Pela primeira vêz na história da humanidade, a ciência se globalizou de facto, embora desconsiderando, merecidamente, a China. Puseram-se de lado rivalidades entre países, entre empresas farmaceuticas e entre universidades e cientistas pesquisadores, estatais e privados, que trocaram informações, sem confidencialidade, permitindo que todos chegassem ao final aproximadamente ao mesmo tempo e cada um usando a experiência dos outros, para melhorarem o seu próprio caminho, sem abandonar a tecnologia que cada um tinha optado seguir. E isto inclui a tecnologia inovadora do “RNA mensageiro”, que está sendo utilizada pela primeira vêz na vacinação de humanos, presente nas vacinas da Pfizer e da Moderna. Sem esquecer os atingidos, e reverenciando os falecidos, pela doença, atrevo-me a dizer que, pelas nobres atitudes da UE e da Ciência aqui abordadas, vê-se que a pandemia também teve aspectos positivos. Oxalá assim se continue e não apenas no campo da saúde pública.