Volta tempo, estás perdoado!

Estranharás por certo esta minha carta. Não admira. Eu próprio me surpreendo. Não te passa pela cabeça, as vezes que o tenho tentado fazer, todavia em vão. Agora, neste mesmo instante, paro, hesito e vacilo. Não é nada fácil, confessar publicamente as nossas fraquezas, erros e imperfeições. Porém hoje nada me desviará dos meus intentos. Rento-me pois, nos que nunca erram. Mando às urtigas os detentores da verdade. Estou-me nas tintas para os petulantes, arrogantes e vaidosos, que se acham no direito de não pedir desculpas a ninguém. Passo ao largo dos que rotulam de loucos, aqueles que se atrevem a escrever cartas a ti, ao vento, à Lua, ao Sol ou a quem muito bem entendam. Não me importo. Já pouco ou nada tenho a perder. Por isso, meu caro tempo, meu bom amigo, venho suplicar-te que perdoes a minha ingratidão, ignorância e estupidez. Desculpa! Confundi e baralhei as coisas. Como é que não vi o generoso sol da Primavera, com que inundaste a minha alma, quando dava os primeiros passos de criança? Como é que depois, no auge da vida, esqueci o calor do Verão, com que me deste forças para seguir caminho? E mais tarde, como é que não entendi a suave beleza do Outono, com que apaziguavas os meus ímpetos, preparando-me para o Inverno, que haveria de bater-me à porta? Que cegueira a minha! Para maior desespero reconheço, que agora é tarde demais. O Inverno já chegou e a Primavera é certo, que jamais me visitará. Não adianta estar para aqui com choradinhos, até porque não encontro palavras. A única que me ocorre, de momento, e faço questão de escrever em maiúsculas, é – DESCULPA. Pronto! Já disse o que calava por falta de coragem. Sinto-me agora aliviado, como se me tivessem tirado de cima um fardo. Resta-me aguardar pacientemente o teu perdão. Sei que não costumas pronuncia-te de imediato, que pensas, meditas e só passados uns anos falas. E que coisas espantosas nos revelas então! Transformas verdades em mentiras. Avivas, adormeces, apagas palavras, pensamentos e obras. Mudas conceitos e opiniões. Trazes choros e alegrias. Ditas nascimentos e mortes. Eu sei lá do que és capaz de fazer… do melhor e do pior. Cumpridos os meus propósitos, ficaria por aqui não fora a onda de descrença, desânimo e desespero, a mesma que senti inicialmente. Se calhar é parvoíce, mas que queres? As dúvidas são como pedrinhas nos sapatos. Dificultam-nos, emperram-nos os passos. “Que pensarão os leitores desta carta?” – a pergunta atormenta-me. A ideia horroriza-me. O medo do ridículo fragiliza-me. Começo a olhar para o cesto dos papéis. [Eis-nos chegados ao momento crucial, em que muitas crónicas morrem ou nascem. para bem ou mal dos nossos pecados]. Não. Como já jurei, esta não vai acabar ingloriamente, para mais já quase no final. Seria o mesmo que morrer na praia. Encho o peito de ar, respiro fundo e resolvo continuar. Decididamente o vento não sopra a meu favor. A corrente forte puxa-me e grita-me com voz de gente “ Eh pá! Alguns cientistas afirmam, que o tempo não existe.” Nova paragem. O cesto dos papéis, apercebendo-se da minha tibieza, fita-me ironicamente. Meu caro tempo, não me deixes ficar mal! Aqui só para nós, tu existes ou não existes? Claro que sim. Quem me sulcou o rosto de rugas e entorpeceu meus passos, senão tu? Aceita um abraço. Volta tempo, estás perdoado!

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