O menino que mora dentro de mim

Um dia destes o menino que trago comigo deu-me a entender, que eu estava velho. Não o fez de forma directa, mas a meio da brincadeira, quando parei afogueado, disse que me achava um pouco em baixo.

Que deveria tomar cuidado, pois vinham aí maus tempos. Como se eu não soubesse! Como se já não fossem visíveis, os estragos provocados pela erosão dos anos! Fiquei apreensivo com a observação, embora anteveja perfeitamente, o futuro pouco promissor que me aguarda.

O que a mim me mete mais medo, é que aborrecido da lentidão dos meus passos, dos passeios reduzidos, das mesmas histórias contadas, repetidas e chatas, resolva abandonar-me. E eu sem ele, para ser sincero, de certeza que não vou aguentar a vida. Não vou, não.

Dependo totalmente da sua alegria, vivacidade, traquinice e irreverência.

Como tal, ciente das tormentas que me espreitam, incapaz de mudar o rumo da viagem, procuro ao menos evitar ou tornear os escolhos. Calo-me, conformo-me, resigno-me. Refilar seria tão ridículo, como reclamar pelo facto do carro, com mais de meio século, arrancar com dificuldade, andar aos trambolhões e ir-se abaixo constantemente. Fiquem pois tranquilos, que não venho carpir mágoas, lamentos, dores ou ensinar o que quer que seja.

A vida toda ela é demasiado complicada, para ser explicada em lições ao domicílio ou por correspondência. A meu ver, só começa a ser entendida, se é que alguma vez se dá, quando atingidos os diversos patamares. Antes disso tudo é inútil e prematuro, já que de uma forma geral temos a mania, que as coisas más nunca nos alcançam. Apenas as descobrimos, quando nos batem à porta e sentimos na pele.

Nem é preciso ir muito longe. Olhem, eu por exemplo, aqui há uns anos atrás seria incapaz de afirmar, que trago uma criança no coração. Pois bem, aqui estou a expor-me sem complexos, indiferente a comentários, juízos ou críticas. Não se tome esta atitude por desafio, provocação ou sobranceria. Também não se interprete, como sinal de rendição. Isso então não. Baixar os braços nunca. Seria incapaz de ficar parado a ver os dias passar, como comboios uns atrás dos outros. Pelo menos, enquanto a criança me animar com a sua presença.

Estarão já a perceber a razão, porque considero chegada a altura, de lhe dedicar toda a atenção do mundo.

Rento-me em frases feitas, aforismos, citações, provérbios, teorias, fórmulas, esquemas, equações e todas as coisas enfadonhas, que me obrigaram a decorar. Bem vistas as coisas, o lugar para aonde vou é o mesmo, onde moram sábios, cientistas, ignorantes ou imbecis.

Em vez de toneladas de sabedoria, que só servem para aumentar a consciência da minha insignificância, encho a cabeça de coisas singelas, simples e humildes. E tantas há, que de tão belas, mais parecem bocados de céu caídos na terra. Mar, campo, flores, estrelas, música, livros, poemas, crianças e eu sei lá. Muitas, muitas! A gente, com a mania das pressas, é que não dá por elas. Mas mais vale tarde do que nunca.

Vou aproveitar os dias, que me restam da melhor maneira. Vivê-los. Saboreá-los. Reconciliar-me com tudo e com todos.

Compreenderão isto, os que sentem dentro de si a tal criança. Os outros, os que na alma nada sentem, senão o silêncio e a escuridão, resta-lhes ficar sentados a remoer saudades, a queixar-se das maleitas ou a chatear os outros.

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