O foco mediático ao serviço da alienação

Nos últimos dias tem sido impossível não se tornar um verdadeiro especialista no que às ligações familiares no governo diz respeito. Pais, filhos, casais, primos, transformados em ministros, secretários de estado e assessores. Esta situação já levou, inclusivamente, à demissão do secretário de estado do ambiente, Carlos Martins. Confesso que, pessoalmente, dispensava conhecer tão aprofundadamente a família do ministro Vieira da Silva ou de todas as outras 16 famílias Socialistas envolvidas na governação do país. Não pretendo, no entanto, desvalorizar a gravidade da situação e o impacto que tem na descredibilização da política e dos políticos. A falta de ética é evidente e deverá haver espaço e abertura para debater mais aprofundadamente estas questões, quer na Assembleia da República, quer no interior dos próprios partidos que têm desempenhado funções governativas. O que me parece evidente é que o “olho de Sauron” da imprensa portuguesa, quando se foca num assunto, não descansa enquanto não o sugar até ao tutano e, tal como o personagem da trilogia do Senhor dos Anéis, parece apenas ter a capacidade de se focar sobre um assunto de cada vez. Enquanto isso outros temas da actualidade, de consequências bem mais graves para a nossa vida, vão passando despercebidos, qual pequenos hobbits transportando o anel. Esteve completamente fora dos holofotes mediáticos, por exemplo, a criação de um mercado pan-europeu de planos de pensões. Nas palavras do eurodeputado João Ferreira esta é “uma decisão que representa um passo relevante no sentido da privatização dos sistemas de segurança social. Nada menos do que isto. Talvez não por acaso, a novidade surge poucos dias depois de notícias e especulações costumeiras sobre “a sustentabilidade da segurança social” voltarem às televisões. A dois meses das eleições para o Parlamento Europeu, ficamos a perceber melhor o que significa o “novo contrato social” que o PS anda a prometer. Ficamos a saber que PS, PSD e CDS estão prontos a jogar as nossas pensões e reformas no casino da especulação bolsista.” Ainda no Parlamento Europeu foi aplicado um forte golpe no direito à cultura e liberdade de expressão. A Directiva dos Direitos de Autor no Mercado Único Digital, mais conhecido pelo seu polémico artigo 13, que opta pela via da penalização aos utilizadores que o não cumpram. Esta Directiva, no entanto, não protege os artistas, autores, criadores, artistas, intérpretes, na medida em que estes acabam por não receber a justa remuneração pelo seu trabalho. Por outro lado as grandes empresas, como a Google ou o Facebook, ficam senhoras dos critérios sobre o que pode ou não ser carregado para a Internet. Isto tem implicações gravíssimas sobre a liberdade de fruição e partilha de cultura e conhecimento, ao mesmo tempo que cria mecanismo que poderão vir a permitir a implementação de práticas hipervigilantes e até de censura na internet. No plano interno, PSD e PS, “cozinharam” um novo estatuto dos deputados que permite, entre outras coisas, a acumulação de funções para deputados que sejam membros de sociedades de advogados ou que já trabalhassem em financeiras antes de entrarem no Parlamento, desde que não intervenham directamente em assuntos onde haja conflito de interesses. Esta solução é muito pior que a existente antes, em que tal não era possível, e caso seja aprovada esta proposta em plenário, poderemos vir a ter advogados no parlamento a aprovar leis, feitas pelas suas próprias sociedades de advogados. Se as ligações familiares no governo poderão ser entendidas como pouco éticas, que dizer então desta pouca vergonha?

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