Menos, Sr. Presidente, menos

Já no passado opinei que Marcelo Rebelo de Sousa não se deveria comprometer tanto com o as várias situações que vão marcando a agenda política e muitas vezes não é capaz de resistir à tentação de falar quando o silêncio seria certamente uma melhor opção. Conheço Marcelo Rebelo de Sousa há muitos anos e tive o privilégio de privar com ele semanalmente durante quase dois anos. É efectivamente um homem extraordinário, de uma inteligência notável, mas como todos nós não é isento de falhas, e talvez a maior falha de Marcelo seja precisamente a dificuldade em gerir o silêncio. Apesar de toda a sua hiperactividade, a sua popularidade começa a ver-se afectada e em queda e não porque o Presidente tenha feito algo de especialmente grave para tal facto, são uma sucessão de atitudes, por vezes até aparentemente inconsequentes e supostamente acertadas, mas não suficientemente amadurecidas, que têm levado ao cansaço dessa postura e a estratégia dos afectos começou a ruir. O facto do Presidente aparecer em tudo o que é problemático começa a tirar o simbolismo à sua presença, e na verdade algumas dessas aparições ocorreram em contextos ou vieram a revelar-se como desadequadas, por insuficiência de preparação, por precipitação na decisão, expondo o Presidente a situações pouco recomendáveis e mesmo comprometedoras, o que começa a minar a credibilidade do Chefe de Estado e Marcelo sabe bem a importância de preservar essa credibilidade e autoridade. Há limites e tudo o que é de mais não presta e Marcelo Rebelo de Sousa continua a aparecer de mais, já devia ter acalmado, já se devia ter resguardado um pouco, mas não, continua e continua a comentar tudo o que sucede e muitas vezes em cima da hora, o que nem sempre é a melhor opção, mesmo para alguém com a sua capacidade intelectual. Apenas como exemplo veja-se o comentário sobre as novas nomeações familiares que o governo fez, Marcelo não tem de atestar os méritos de ninguém, a responsabilidade da escolha dos ministros e secretários de estado é do primeiro-ministro, o Presidente deve manter a normal cooperação institucional, não tem de se colar ainda mais ao governo quando disso já é muito acusado e muito menos numa matéria com este nível de sensibilidade. Mas, igual a si próprio, não resistiu e falou e com isso perdeu mais um pouco dessa popularidade que tanto persegue, acabando por estar neste momento abaixo do que Cavaco Silva estava no mesmo momento do seu mandato e ainda a procissão vai no adro. Marcelo Rebelo de Sousa está a exagerar nas opiniões e nas intervenções, mas isso não é novo, noutros tempos muitas vezes o aconselhámos a ser mais comedido, a não comentar tudo o que aparecia, de modo a que quando o fizesse isso fosse notado, é preciso preservar o momento da mensagem para quando ela necessária. É verdade que não ganhámos muito com isso, mas passados quase 20 anos seria expectável que a sua postura tivesse mudado um pouco, mas não. Num cenário, infelizmente não pouco expectável, de problemas mais graves o Presidente está fragilizado pela constante colagem ao governo e nem pode vir depois argumentar que não tinha conhecimento quando todos os dias se ouvem vozes de alerta. Marcelo não tem, nem deve ser oposição, mas também não tem, nem deve ser o protector do governo cada vez que este enfrenta contestação, se continuar por esta caminho não haverá selfies suficientes para lhe devolver a popularidade e a autoridade quando ela for mais necessária.

Leave a Comment

You must be logged in to post a comment.