Introspecções

Para quem, como eu, anda na política há tantos anos, há momentos do calendário político em que as reflexões e as experiências vividas são avassaladoras na forma como ocupam o pensamento. Este é um deles. Chegou mais um período de escolha de candidatos a deputados e como é natural no PSD as coisas começam a ferver, nuns distritos porque há sempre um grande conjunto de eleitos e muitos têm hipótese de chegar à Assembleia, noutros apenas porque dá alguma projecção social e massaja o ego, embora com poucas ou nenhuma esperança de ser eleito. Seja como for, são sempre momentos emotivos que este ano não vou certamente viver na primeira pessoa, mas que já vivi e muitas vezes, já fui várias vezes candidato e até fui deputado em substituição. Uma experiência curta, gratificante, mas que não me marcou com uma vontade muito forte de repetir, não seria garantidamente o meu projecto de vida, embora entenda e respeite que o seja de muita gente e pelas melhores razões, não apenas por interesses económicos ou egoísticos, afinal, sejamos honestos, não se ganha assim tanto como muitos possam pensar. Não é segredo para ninguém que comigo prive que, apesar do conhecimento e relação pessoal de muitos anos, não sou um devoto apoiante do actual Presidente do PSD e tenho mesmo muitas diferenças de opinião e estratégicas com a linha que ele vem seguindo e impondo ao partido, mas obviamente respeito o resultado das eleições internas e reconheço-lhe a legitimidade de fazer o seu caminho e naturalmente ser avaliado pelos resultados. Também não tenho qualquer dúvida que Rui Rio é imensuravelmente melhor que aquilo que temos a governar Portugal e só por isso já contaria com o meu voto porque em circunstância alguma votaria em sentido contrário ao que acredito serem os melhores interesses do meu país e nunca usaria umas eleições legislativas para acertos de contas de eleições internas. Mas voltando aos deputados, tenho um sério receio que outros não tenham a minha mesma postura e promovam ajustes de contas internos afastando dessas listas alguns dos melhores parlamentares que temos, promovendo nos seus lugares para as cadeiras em São Bento alguma da mediocridade que sempre anda a rondar à volta do líder, seja ele qual for. É uma constante nestas alturas, surgem como candidatos a candidatos uns apoiantes devotos cujos únicos méritos conhecidos é lamber os sapatos do líder de forma evidente e serviçal. A liderança é sempre uma posição solitária e é muito fácil deixar-se seduzir por quem aparentemente nos apoia de forma incondicional, essa é uma fraqueza comum a todos os lideres. O trabalho parlamentar, quando levado a sério e com dedicação é muito exigente e recomenda um sério conhecimento do país, das realidades locais em conjugação com competências técnicas, sentido de estado e uma enorme dose de bom senso. Há uma definição de política que acho particularmente feliz, por simplista, mas muito objetiva: “É a arte de resolver um problema sem criar um problema ainda maior” e essa arte exige pessoas com especiais habilidades. O primeiro desafio que Rui Rio vai enfrentar nas legislativas é conseguir apresentar listas de candidatos capazes de fazer o trabalho parlamentar com dignidade e simultaneamente em quem os cidadãos de cada circulo se revejam e para isso terá de pôr de parte as tentações de excluir aqueles que não têm estado propriamente na primeira linha do apoio à sua liderança, e ir buscar os melhores venham de onde vierem. Veremos se é capaz disso ou se vai dar razão a quem o considera um líder absolutista que não admite conselho nem discussão. Confesso que estou curioso, muito curioso…

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