A VIDA É PARA SER VIVIDA

A vida é uma lição complicada, que não se dá por aprendida, por mais que estudada. E eu cá bem queria despedir-me deste mundo com ela sabida. Até nem digo tanto, pois já por muito contente me daria, se ao menos conseguisse descobrir quem é o fulano, cuja cara vejo reflectida no espelho e me acompanha todos os dias.

Ora, se nem ao menos isso consigo, digam-me lá como poderei alguma vez entender a vida? Se calhar são os meus olhos, que de tão cansados nada conseguem enxergar. E são com certeza. Pois ela está aí. A vida e a morte. Curiosamente, não obstante diferenças tão profundas andam sempre juntas de mãos dadas.

São inseparáveis. Alguém, com um pouco de humor negro, gabava a memória prodigiosa da morte, pois que conste nunca se esqueceu de ninguém. Leva o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, o canalha e o virtuoso. Impiedosa, inclemente, verdade seja dita, mas incorruptível.

Não cede a pressões, lamentos, chantagens ou tentativas de suborno, mas cá está aquilo de que falávamos – a vida passa por nós independentemente de a entendermos ou não. Mostra-se tal como é sem hipocrisias, artificialismos, cinismos, operações plásticas ou coisas do género. No ar que respiramos. No pão que levamos à boca. Na água que bebemos. Nos beijos que trocamos. Nas carícias, afagos e gestos de ternura. Nos ódios, invejas, raivas, cobiças e rancores. Na graça e na desgraça. Na ventura e desventura. Nas paixões feitas e desfeitas.

Bonita, feia, amorosa, cruel, justa, injusta, incongruente. Tem bocadinhos de céu e bocadinhos de inferno. Tem tudo e não tem nada. Mostra-nos o que gostamos e o que não gostamos. Somos actores e espectadores. Aplaudimos. Apupamos. Somos aplaudidos e somos apupados. Sofremos, amamos e lutamos. Nascemos, crescemos, vivemos e morremos. Depois pronto. Acabou-se. Talvez na hora da despedida, como numa película de Hollywood, descubramos se estivemos à altura do guião, que os deuses escreveram para nós. Provavelmente nem isso.

A vida não se fez para ser entendida. Fez-se para ser vivida. E eu vivo-a sofregamente. Sei que não posso dar-me ao luxo de perder tempo. Por isso poucas perguntas faço, ou nenhumas. Para quê, se apenas escuto silêncios? Já me habituei. Mesmo nos dias mais difíceis, em que olho para trás e vejo bem vincadas na areia apenas as minhas pegadas. De quem haveriam de ser, senão as minhas, pois se mais ninguém me acompanhava! Estivesse aqui a a minha avozinha, não me perdoaria a heresia. Ela diria que nunca estamos sós. Todos temos um anjo da guarda, que nos protege e ampara nas boas e nas más horas.

E quando o tal anjo fracassava e deixava, que a desgraça batesse à porta, então aí usava o conhecido ditado “Deus escreve direito por linhas tortas”. É verdade avozinha.

Mas às vezes tão tortas são, que a gente por mais que tente, não entende. Isso lhe observava, mas ela explicava, que quando nasce uma pessoa traz o destino marcado. E pronto. Discussão terminada. Não pensem que os cientistas, teólogos, filósofos, vão dar muito mais longe. O povo com toda a sua simplicidade, olhos mais postos na terra do que no céu, acaba por chegar ao mesmo beco sem saída – ou se crê ou não se crê. Por isso independentemente de tudo julgo eu, que a vida em vez de discutida deve ser vivida. É que depois pode ser demasiado tarde.

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