Toponímia local – Coteis – Apontamentos para a origem do topónimo

O topónimo “Coteis” tem origem no apelido Cotel. O apelido é de origem espanhola, e tornou-se comum na península Ibérica, assumindo particular importância no século XIII, sobretudo com a presença de membros desta família nas tropas de D. Afonso, senhor de Molina, irmão de Fernando III, na batalha dos campos de Jerez em 1231 contra Aben Hud emir de Múrcia. (1) As referências a este apelido aparecem com mais frequência a partir do século XV e XVI, em especial quando em 1551 elementos desta família acompanharam o futuro rei D. Felipe II de Espanha na sua viagem a Inglaterra para preparação do seu casamento com Maria Túdor, sua prima. A família teve escudo e brasão. Diz-nos a leitura dos elementos que nele constam, que os mesmos se devem à sua participação em heroicas e valorosas ações ao serviço da coroa. A forma como o mesmo aparece em Portugal é até então ignorada, no entanto, a documentação encontrada remete a sua presença apenas para o termo de Moura, onde a família gozou igualmente de privilégios e cuja existência do apelido é confirmada por vários documentos. O primeiro documento é datado de 1473, no qual D. Afonso V concedeu Carta de privilégio a Álvaro Pires Cotel, morador em Moura e filho de Pero Cotel, para ser recebido por besteiro a cavalo. (2) Um outro documento refere o nome de Frei João Cotel num benefício curado (3) da Igreja de São João Baptista no qual D. Sebastião lhe concede alvará de mantimento no ano de 1561. (4) A confirmação da ligação da família à coroa e proximidade com a corte espanhola, surgiu no reinado de D. Filipe I de Portugal (II de Espanha), quando foi concedido a um elemento desta família, Francisco Cotel, a provisão de eremitão da Ermida de Nossa Senhora da Serra no termo de Moura no ano de 1591. (5) Já em 1654 aparece um outro João Cotel, meirinho e freire da ordem de Avis que por carta de D. João IV é apresentado na Vila de Moura num benefício curado da Igreja de Santo Agostinho (6) e ao qual já tinha sido concedido em 1649 o oficio de meirinho da mesma ordem, carta de hábito e alvará de profissão. Não é de estranhar o vínculo desta família a ofícios eclesiásticos, uma vez que no seu brasão estão igualmente identificados elementos com características espirituais e religiosas que representam a fé, misericórdia, temperança, caridade e justiça, representados pelo ouro, cuja utilização revela também o amor e nobreza. Para além dos privilégios e ocupação de cargos, devia esta família ter também rendimentos de propriedades e terras, assim o justifica a carta de privilégio concedida para besteiro a cavalo, uma vez que os besteiros eram escolhidos entre os habitantes com rendimentos e bens que possibilitassem adquirir tal armamento, sendo esta a principal condição, pois partia-se do princípio que quem tinha dinheiro para adquirir uma besta (7) também podia sustentar um cavalo. A origem do topónimo “Coteis”, plural de “Cotel” (8) está assim ligada à existência em Moura de uma família com este apelido. A propriedade denominada “Herdade dos Coteis”, ou a área que hoje a constitui, terá inicialmente pertencido a indivíduos desta família, que por lhes pertencer, assim ficou conhecida, onde o próprio nome, com a utilização do artigo “dos” estabelece aqui um elemento de posse. A ocupação deste espaço enquanto área de exploração agrícola é de facto bastante antiga, sendo que em 1876 foi propriedade de João de Brito Pimenta d’Almeida (9), vereador em 1862 e 1863, Escrivão e Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Moura em 1869 e 1874 respetivamente. (1) Apelido Cotel. Heraldrys Institute of Rome (2) Chancelaria de D. Afonso V., Liv.33, fl. 230v. Doc. 1. (3) Beneficio eclesiástico que tinha como objectivo a cura das almas. (4) Chancelaria da ordem de Avis, Liv. 1, fl 349 v. (5) Chancelaria da ordem de Avis, Liv. 8, fl 25 v. (6) Ocupou a vaga que deixou Frei Francisco do Couto que foi promovido. (7) Arma com a aparência de uma espingarda, com um arco de flechas acoplado no lado oposto da coronha, acionada por gatilho (8) Dicionário onomástico e etimológico da língua Portuguesa, Vol. I José Pedro Machado, editorial confluência, p. 462. (9) João de Brito Pimenta d’Almeida, lavrador e proprietário, membro da lista dos maiores contribuintes do concelho de Moura entre 1862 e 1884.

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