Quando Cassiano Branco se interessou por Moura e a obra de Zambrano Gomes

Cassiano Branco (1897-1970) foi um conceituado arquiteto português da primeira metade do Século XX, autor de uma obra vasta e multifacetada que inclui projetos idealistas, alguns deles nunca realizados na totalidade, como é o caso do projeto de urbanização para a Costa da Caparica. Pertenceu ao grupo de notáveis que incluía Pardal Monteiro, Cottinelli Telmo, Carlos Ramos, Cristino da Silva ou Jorge Segurado, considerados os grandes responsáveis pela mudança modernista da arquitetura portuguesa. Não era um arquiteto do regime, a sua carreira prosseguiu por isso sem encomendas diretas para grandes construções do Estado e vivia sobretudo de encomendas privadas, mas foi chamado para o projeto da Exposição do Mundo Português em conjunto com os outros já referidos, acabando assim por não ser totalmente alheio ao estilo oficial do Estado Novo, comummente designado Português Suave, que dominou o panorama arquitetónico nacional a partir do final da década de 30. Edifícios de sua autoria como o Éden para o qual apresentou uma 2ª proposta não realizada, o Hotel Vitória e o Coliseu do Porto, são exemplos de construções de grande escala urbana que acabaram por confirmar as competências plásticas e o modo como soube integrar o contributo das vanguardas artísticas europeias, as quais constituem a referência da primeira modernidade nacional, sendo considerado o mais inventivo e cosmopolita da sua geração. Vem no entanto este texto a propósito não da obra deste arquiteto, mas sim do seu interesse pela vila de Moura, inserindo-a assim no conjunto de vilas com relevante interesse para o estudo da arquitetura nacional. No final da década de 30, numa altura em que a ação da Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais assume um papel mais importante no restauro de alguns monumentos, intensificando a sua intervenção no quadro das comemorações dos centenários, Cassiano Branco inicia uma recolha documental dos tipos de arquitetura habitacional típica de cada região, bem como de construções ligadas a aspetos históricos e sociológicos do país tentando estabelecer uma ligação direta com as atividades ou profissões mais expressivas do Portugal tradicional. Neste contexto, embora não se conheça até à data qualquer obra por si projetada, estudo urbanístico ou arquitetónico para Moura ou para o concelho, adquiriu a Zambrano Gomes uma colecção constituída por 31 reproduções em formato 13×18 com aspetos arquitetónicos da vila de Moura, produzidas entre 1936 e 1938. As imagens, tal como as que foram recolhidas em outras regiões, terão servido em parte para o estudo do projeto inicial do “Portugal dos Pequenitos” cuja conceção e arquitetura estão fortemente embebidas do espírito idealista do Estado Novo. Esta obra de homenagem ao país acabaria por se inscrever no contexto nacionalista, o qual nunca fez parte do vocabulário deste arquiteto mas serviu para afirmar a sua versatilidade. A coleção sobre Moura, na qual se perpetuou uma memória espacial e emocional inerente à alteração física dos espaços, inclui imagens que vão desde pórticos das Igrejas de São João Baptista, São Francisco, Santo Agostinho e São Pedro; Ruinas do Convento do Castelo e Santa Clara; Interior da Igreja de São João Baptista e Santo Agostinho; Vistas parciais; Ruas, Praças e Jardins; Brasões e um presépio na Capela Mor da Igreja de São João Baptista, antes de restaurada. Se algumas delas são já conhecidas, as seis aqui apresentadas, datadas de 1938 justificam o propósito deste artigo, pois serão pouco conhecidas ou até mesmo inéditas. Será no mínimo curioso que em Lisboa sejam estes os únicos registos conhecidos da atividade fotográfica de Zambrano Gomes tendo ele residência nesta cidade, não existindo sequer qualquer registo comercial da sua atividade enquanto fotógrafo, aparecendo referenciado como fotógrafo de atividade isolada apenas em Moura. A resposta é simples, Zambrano Gomes apesar de ter publicado um considerável número de fototipias até 1934, editadas em series fechadas e numeradas, sobretudo no algarve, e nas quais se insere a coleção sobre Amareleja, embora esta já datada de 1935, não era fotógrafo de profissão, pelo menos até se instalar em Moura.

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