O fim das barbearias tradicionais em Moura

As barbearias constituíam um espaço social comum à maioria dos homens. Consideradas como locais onde se ia não só para cortar o cabelo ou a barba, mas também para ler o jornal; comentar as notícias ou falar de futebol. O barbear com pincel, navalha e sabão de barba; constituía não só um ritual de bem-estar pessoal na vida dos homens, mas também conferia aos frequentadores das barbearias um toque de requinte. Mas apesar de toda a sua simbologia inerente ao quotidiano masculino, sabia-se de antemão que estes espaços estavam condenados a desaparecer, fruto dos tempos; mesmo modernizadas em termos de utensílios, as barbearias não conseguiram fazer face ao aparecimento dos cabeleireiros unissexo. O que antes era um ponto de encontro entre cavalheiros começou a cair em desuso, culpa em parte do tempo cada vez mais escasso imposto pelo ritmo da sociedade atual. Se antigamente a aprendizagem era feita na própria barbearia, hoje o mesmo não acontece; sendo obrigatória a aprendizagem numa escola, desta forma a falta de aprendizes ditou aos poucos o desaparecimento da profissão. As barbearias, enquanto locais de memória e tradição; espaços sociais e de convívio foram desaparecendo, é certo que em Moura existiram muitas mais barbearias do que aquelas adiante mencionadas, mas estas foram as que mais tempo resistiram às mudanças do quotidiano, acabando assim por fazer parte de uma memória coletiva onde a maioria dos clientes, fruto do convívio diário, passaram a ser sobretudo amigos. A barbearia do Mestre “Calha” é hoje propriedade de Joaquim José Feliciano, herdou-a de seu pai José Maria Feliciano em 1963 quando este faleceu. Começou a trabalhar com 12 anos de idade em 1947, na barbearia que ainda hoje conserva, embora o seu mestre tenha sido André Cavalheiro, também ele barbeiro. Aos 15 anos começou trabalhar sozinho na cadeira ao lado do pai. A barbearia era ponto de encontro obrigatório para partidas de Jogo de Damas. Conta ainda o mestre “Calha” que ali se falava de tudo, menos de politica, hábito que ficou da altura do Estado Novo, quando tal era proibido. A barbearia mantém a mesma disposição inicial, apenas as cadeiras de madeira foram substituídas por outras mais modernas. Foi fundada em 1926, esteve sempre instalada nos Cantos de João Mendes, é a mais antiga da cidade. A barbearia do mestre Rola foi fundada em 24 de Agosto de 1935, pelo seu pai José Joaquim Rola. António Rola, natural de Moura, nasceu em 5 de Fevereiro de 1940, começou a trabalhar na barbearia como aprendiz em 1950 depois de ter terminado a escola primária, passados dois anos já fazia o trabalho de barbeiro sozinho e na ausência do seu pai era ele que tomava conta da barbearia. Apesar de alguns convites para ir trabalhar para Lisboa, resolveu permanecer em Moura, herdou então a barbearia de seu pai com quem aprendeu o ofício. Foi jogador do Moura Atlético Clube e também um exímio jogador de damas, a barbearia à qual dedicou toda a sua vida apenas encerrou por ocasiões especiais, sendo ponto de encontro habitual, segundo disse em tempos numa entrevista “Aqui é a universidade do dia”, espaço onde cada um falava das suas vidas e da vida da cidade. A barbearia Mamede foi fundada em 1959 por Mamede Marques Hermenegildo, natural de Barrancos, onde nasceu em 15 de Dezembro de 1935, veio para Moura com 13 anos, altura em que começou como aprendiz numa barbearia que havia na Avenida do Carmo. Já como barbeiro vai depois para a barbearia do Sr. Mansos na Rua 5 de Outubro, seguindo-se depois a barbearia do Mestre José Barradas na Rua Conselheiro Augusto de Casto, no espaço que foi ocupado pela Pastelaria Tintim. A Barbearia funcionou inicialmente na Praça Sacadura Cabral nº 38, onde Mamede trabalhou sozinho até 27 de Abril de 1964, altura em que se juntou a ele Joaquim José Pica, na altura como empregado, e ao qual propõe sociedade no ano de 1975. Os dois sócios transferem então nesta altura as instalações para o nº 37 da Praça Sacadura Cabral. Joaquim José Pica, natural de Moura, também iniciou a profissão muito cedo, quando terminou o ensino primário seu pai foi com ele procurar trabalho como aprendiz, era assim na altura; teve quase para ser carpinteiro mas a falta de serviço levou a que não fosse aceite na carpintaria, desta forma começou então como barbeiro, profissão que iniciou em 1953. A chamada para o serviço militar no Ultramar ditou um interregno na profissão. Quando regressou pensou incorporar-se na Guarda Nacional Republicana, mas a sua mãe dissuadiu-o da ideia convencendo-o a continuar na profissão que aprendera e que manteve até hoje. Com a morte de Mamede Hermenegildo em 2008, Joaquim continuou a atividade mesmo depois de reformado na tentativa de não deixar morrer o ofício que abraçou quando tinha apenas 13 anos de idade. O meu avô materno era cliente da barbearia do mestre Zé Salvador, no Largo da Latôa, da qual também guardo algumas recordações. Meu pai sempre foi cliente da barbearia Mamede. Comecei a frequentar esta última pela sua mão em 1980, tinha 4 anos de idade, o mesmo aconteceu depois com o meu irmão. Esta passou então a ser também a nossa barbearia, era quase sempre assim, como se fosse um legado. Passados 36 anos recordo o cheiro, o algodão no pente; as conversas e o entra e sai constante por vezes só para dizer bom dia, bem como a coleção de galhardetes nas paredes. Na prateleira, um frasco de loção que sempre conheci com a imagem dos “Beatles”; recordo também o som da rádio, por norma sempre sintonizada na mesma estação, na qual passavam os grandes clássicos nacionais. A barbearia do mestre “Calha”, segundo Joaquim José Feliciano, agora com 80 anos, ainda funciona mas sem horário, abre quando tem vontade, situação que vai acontecendo menos vezes. Quando tiver que encerrar diz que não fica triste porque de certa forma vê o seu filho, Eduardo Feliciano, cabeleireiro, continuar na atividade que o seu pai iniciou. O encerramento da barbearia dos mestres Mamede e Joaquim Zé bem como do mestre Toi Rola no passado dia 16 de Julho, e o futuro encerramento da barbearia do mestre “Calha”, ditará o fim definitivo das barbearias tradicionais em Moura, restarão apenas as memórias das conversas; do convívio e de uma profissão que marcou durante gerações a rotina diária de muitos mourenses.

Leave a Comment

You must be logged in to post a comment.