A árvore e a floresta

Hesito. Se calhar, talvez tivesse sido melhor manter-me calado, quedo e mudo. Porém, irão perdoar-me,  mas não  é todos os dias, que a natureza resolve por sua conta e risco esculpir uma santinha, no tronco de uma árvore. Só isso, apenas isso, me leva a quebrar  o silêncio, que geralmente adopto em iguais circunstâncias.

É que se há coisas que não gosto de fazer, uma delas é mexer com a fé dos outros. A fé é bengala, que ampara os passos dados na caminhada da vida. É força que move montanhas – quando a gente não vai lá, vêm elas a ter connosco. Basta chamá-las “Anda, montanhita, anda!” que de pronto se amagam a nossos pés, dóceis, meigas, mansas.

Seja como for, independentemente da fé de cada um, falo à vontade, sem sentimentos de culpa, certo que as minhas palavras, pouco ou nenhum dano provocarão nas mentes sãs. Nas doentias, conturbadas e exacerbadas, não tenho tanta certeza assim. Mas não faz mal, já que de  deformadas não passam.  

Não. Não brinco com a fé. Se isso pensam desenganem-se. Prezo-a e respeito-a em demasia para fazê-lo. Antes pelo contrário, defendo-a dos que dela  se aproveitam, para os mais diversos fins. 

Mas pronto. O episódio terminou. A cidade voltou ao seu ritmo normal e sossegai ó minha gente, a árvore continua no mesmo local, intacta e  incólume. Valha-nos ao menos isso. Estão desfeitos os temores  iniciais de desaparecer, vendida aos bocados, às pernadas ou transferida para outra cidade. Eu próprio tive oportunidade de confirmar, que  vive agora em perfeita harmonia com as vizinhas. Voltou a paz ao contrário do que acontecia nos   primeiros dias, devido ao   mal estar gerado pelas outras, que não viam com bons olhos o tratamento desigual.  E compreende-se, não é? Até as árvores se recusam a ser discriminadas. Procurei obter mais pormenores, porém   as pessoas mostravam-se receosas, pouco à vontade. Algumas apenas perguntavam timidamente “ Mas isto foi obra da natureza ou mão humana deu uma ajudazinha?  E logo de pronto, para que não houvesse dúvidas, observavam  “Eu cá não fui…se não rabisque-me.”

Agora pouco importa. Tudo está bem quando acaba bem. Suspiremos de alívio, pelo epílogo feliz, pois a  natureza é capaz do pior e do melhor. Ninguém sabe até aonde ela pode chegar. Aqui foi uma santinha, mas já vi troncos tomarem formas obscenas, desdobrados, retorcidos, abraçados em loucas orgias. Que o diga o mestre Prudêncio, que surpreendeu um limoeiro e uma laranjeira cingidos, num apaixonado abraço. Isto já para não falar do coração e o “I love you Bonifácia”,   gravados no tronco de uma figueira, no seu quintal. Evidentemente, que neste último caso, deu logo para perceber claramente, que alguém lhe andava a papar os figos e a escrever palavras em chinês.  

Volto a prevenir, que não estou a gozar com ninguém, nem vontade tenho disso. Que ele até vinha muito a jeito, uma árvore milagrosa mesmo à entrada do Convento do Carmo. Já viram o pulo que  esta terra daria, se  entrasse no roteiro das peregrinações e romarias?

Mas pronto. Nem uma palavra mais. As árvores não têm culpa, os homens também não e a natureza ainda menos. Deixemos as coisas assim. Pouco adianta fazer perguntas. As respostas, se é que as temos, perdem-se num profundo silêncio, que nem todos interpretam da mesma forma. Desse modo, cientes da nossa insignificância, devemos estar atentos aos sinais terrenos, pois é cá em baixo que ganhamos ou perdemos céu. Não sou ninguém, para ensinar seja a quem for, os caminhos do Paraíso. Agora uma coisa eu sei; mal vamos nós, quando confundimos a árvore com a floresta. 

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