A loja do meu bairro

Nos dias de hoje está muito implementado o conceito de interior e quase sempre com uma dupla conotação: o triste interior, de economia enfraquecida e a atraente ruralidade de vida calma, onde sabe bem passar uns dias de descanso.

O segundo pensamento, presente naqueles que vivem nas áreas mais urbanizadas e densamente habitadas, atrai igualmente quem vive no interior do país, levando-os a sair da sua terra e habitar um território onde por metro quadro vive muita, mas mesmo muita gente. E quem continua a viver nestes territórios mais despovoados tem muita necessidade de se deslocar e procurar as multidões. Será por isso que, vivendo em Lisboa, me cruzo inúmeras vezes, aqui na capital, quase sempre, nos centros comerciais, com pessoas que residem em Moura.

Chego agora ao objetivo deste primeiro texto do novo ano: o comércio. Sou uma “anti-centros comerciais”, embora lhe reconheça a praticabilidade. Contudo, a minha opção recai muitas vezes pelo comércio tradicional e, sempre que possível, compro em Moura. Acima de tudo porque a pequena economia é essencial para o desenvolvimento do país e essa pequena economia gera-se no comércio tradicional que emprega poucas pessoas (quando consegue), mas reconhece muito mais o seu valor. Deixar a economia à mercê de grandes grupos de distribuição é deixarmos o país nas mãos de poucos e muito poderosos.

Além do fator económico, há depois o fator humano. Claro que num centro comercial funcionários das lojas são simpáticos, mas nós somos apenas mais um, na loja do bairro basta ir duas vezes e à terceira quando entramos já somos acolhidos como um membro da família. E depois há ainda o cuidado no atendimento.

Recordando o último Natal, fiz algumas comprar nas lojas do centro comercial e com sorte deram-me papel e um laço para que faça em casa os meus embrulhos. E, em algumas situações, nem embrulhos ou material para o fazer está disponível. Depois, há a loja de bairro, onde por uma peça de pouquíssimo valor foi feito um embrulho, com laço, e colocado num saco de papel. Tudo com muito cuidado porque o que interessa acima de tudo é o cliente.

Ora, tendo tantos exemplos destes no mundo rural não deixa de me surpreender ver a população do interior a optar por compras despersonalizadas e a enriquecer regiões que não a sua. Comentar que “não compro porque não há” poderá nãos ser válido porque só haverá se se revelar esse necessidade. Se continuarmos a deslocar-nos às grandes urbes para compras, menos haverá disponível nas nossas terras. Se trabalharmos todos para melhorar a vida da nossa rua, conseguiremos todos ter ruas perfeitas.

A loja do bairro é muito mais do que a simples lojas: é economia, é personalização, é ter e dar valor.

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