No mês dedicado à Mulher, a Planície entrevista a enfermeira Célia Geadas
“Ser enfermeiro é a arte de cuidar e é uma missão”

No mês dedicado à Mulher, a Planície entrevista a enfermeira Célia Geadas<br>“Ser enfermeiro é a arte de cuidar e é uma missão”

É uma das enfermeiras mais antigas do Centro de Saúde de Moura, onde chefia uma equipa. Especialista em Saúde Infantil e Pediátrica, conta com 37 anos de trabalho ao serviço da comunidade mourense, função essa que desempenha com a maior dedicação no seu dia-a-dia.

A pandemia trouxe-lhe momentos “desgastantes” e “angustiantes”, mas também de grande “sabedoria” na sua rotina, desde há dois anos.

Dedicada de “corpo e alma” à profissão, Célia Geadas formou-se aos 22 anos na Escola Superior de Enfermagem de Beja e desde o primeiro dia, que teve a certeza do que queria ser e fazer: dedicar a vida a ajudar quem mais precisa.

Hoje, apesar de todos os sacrifícios pessoais que já teve de enfrentar com as mudanças de turno, os bancos de urgência e as chamadas de última hora, se voltasse atrás, faria tudo outra vez. E porquê? Porque considera que “só assim é feliz”.

Casada e mãe de dois rapazes já adultos, um com 35 anos e outro com 29, é na família que encontra forças para os dias mais exaustivos.

No mês dedicado à Mulher, a Planície entrevista Célia Geadas, que desde que começou a pandemia, mantém-se na linha da frente no combate ao covid-19 no concelho de Moura.

De voz calma, mas firme, começou por falar na profissão e nos anos que tem dedicado ao serviço da comunidade mourense: “A profissão marca a maior parte da minha vida, porque é no local de trabalho, onde passamos a maior parte do tempo. Ser enfermeiro exige muito de nós; ser enfermeiro é a arte de cuidar e é uma missão. É o que eu tenho levado desde há 37 anos, assim como arranjar sempre tempo para conciliar a vida familiar, com a vida profissional”.

A família foi sempre a sua prioridade e neste balanço que agora faz de uma vida dedicada aos outros, tem a certeza que “as horas despendidas a nível profissional ultrapassam aquelas que dedicamos à família”.

Sente que, enquanto mãe, nem sempre foi possível estar presente nos momentos mais especiais, mas aprendeu que o mais importante “não é a quantidade de tempo que estamos com eles (filhos), mas a qualidade de tempo. E quando estamos, estamos. Foi isso que tentei fazer ao longo destes anos. Os miúdos cresceram, já saíram de casa e agora é mais fácil de gerir porque sou só eu e o meu marido”.

O covid-19 trouxe uma nova realidade, “em que nenhum de nós, enquanto profissional de saúde e até sem ser, estava preparado, nem imaginava o que poderia acontecer”. Entre tudo o resto que foi necessário adaptar e solucionar de forma rápida, os serviços de saúde foram obrigados e sofrer uma reestruturação e com os mesmos recursos humanos: “Não é com o horário de trabalho de sete horas que conseguimos. Temos que tirar muito do nosso tempo para dar resposta àquilo que nos é solicitado”.

Nestas alturas, mais do que nunca, a família e uma equipa unida faz toda a diferença no sucesso e organização do trabalho. E foi necessário “muito suporte familiar, com muita força por parte dos colegas e de uma equipa de enfermagem muito responsável”, explicou a enfermeira.

Mesmo assim, é inevitável “o desgaste físico, emocional e psicológico. As pessoas vão ficando exaustas e é o que acontece neste momento”.

Apesar de tudo, há sempre uma “luz ao fundo ao túnel” e é assim que os dias vão passando: “Aprendi desde já uma coisa: viver um dia de cada vez e que nada está nas nossas mãos”.

Esta realidade “dura” e “diferente”, não trouxe apenas desgaste, mas contribuiu para o crescimento profissional de Célia Geadas e da equipa: “Claro que sim. Tivemos de reestruturar os serviços e prestámos cuidados que até então desconhecíamos. É desgastante, mas enriquecedor”, confessou.

O facto de viver numa cidade pequena como Moura, permite à profissional de saúde estar próxima da comunidade e sentir que o seu trabalho é reconhecido: “É sempre importante, porque nós trabalhamos em prol de uma comunidade e gostamos de ser reconhecidos. No entanto, não o fazemos para estar à espera desse reconhecimento, fazemos aquilo que tem de ser feito para melhorar as condições de saúde da população que servimos”.

Esse “espirito de missão” como já referiu ao longo desta conversa, faz com que nunca “desligue”, mesmo quando não está em serviço. “É impossível. Moura é um meio pequeno em que toda a gente se conhece. As pessoas abordam-nos e perguntam-nos o que devem fazer, que medidas devem tomar e sobre os resultados dos testes”, entre outras dúvidas.

Numa altura em que se fala tanto de liderança feminina e da importância das mulheres em cargos de chefia, como enfermeira Chefe do Centro de Saúde de Moura, Célia Geadas nunca sentiu que houvesse diferença no tratamento: “É inquestionável que essa diferença existe na nossa sociedade. Eu, enquanto chefe do Centro de Saúde de Moura, não noto isso porque a equipa é maioritariamente feminina, já que entre assistentes operacionais e enfermeiros, há três homens”.

Do tempo em que começou a trabalhar no Centro de Saúde de Moura, guarda as melhores recordações: “Recordo com muita saudade porque é a nossa primeira experiência a nível profissional e marca a nossa vida. Tivemos de reestruturar um serviço, porque a maioria das irmãs (freiras) não era enfermeira. Com o que tínhamos aprendido e com novas ideias, modificámos a forma como a enfermagem e a prestação de cuidados estava a ser feita”. Logo a seguir, “vieram novos colegas e foi sempre assim que conseguimos ir ajustando, melhorando e dando o nosso melhor”. E assim tem feito desde que se formou.

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