Actual situação do turismo no Alentejo e as perspectivas futuras para a recuperação do mesmo

Actual situação do turismo no Alentejo e as perspectivas futuras para a recuperação do mesmo

O turismo em Portugal foi, em 2020, fortemente afectado pela pandemia Covid-19. Por um lado, as medidas de combate à pandemia obrigaram ao encerramento temporário de alguns estabelecimentos. Por outro, ao longo do ano, foram aplicadas diversas restrições à mobilidade com impacto na procura quer dos residentes em Portugal, quer dos residentes nos principais mercados emissores de turistas para Portugal.

Segundo os dados publicados pelo Instituto Nacional de Estatística, (INE), em 2020, o Alentejo foi a região que registou maior proveito médio por dormida (48,0 euros) e a que apresentou maior crescimento deste indicador (+8,6%).
A hotelaria concentrou 30,3% do total de estabelecimentos e 76,9% da capacidade-camas no contexto dos estabelecimentos de alojamento turístico.
Todas as regiões registaram diminuições no número de unidades, sendo esta diminuição menos notória no Norte e no Alentejo (-9,1% e -9,8%).

A Planície entrevistou o presidente do Turismo do Alentejo, (ERT), que é também presidente da Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo (ARPTA), Vítor Fernandez da Silva, sobre a actual situação do turismo no Alentejo e as perspectivas futuras para a recuperação do mesmo.

“A pandemia trouxe questões, que de maneira nenhuma, estão resolvidas e, se calhar as consequências mais gravosas ainda estão para vir”, disse Vítor Silva, acrescentando que “o maior impacto da pandemia, virá depois”.

O responsável do Turismo do Alentejo salientou em relação à situação que “foi difícil e continua a ser para os empresários. São eles que vivem da sua actividade económica e, sem terem turismo ou terem uma quebra brutal, como aconteceu e ainda está a acontecer, obviamente estão a sofrer muito”.

E adianta que “nós veremos, quando a situação for ultrapassada e quando as medidas de apoio de mitigação que o governo tem exercido sobre a actividade económica, quando elas terminarem, vamos ver quem é que está em condições de retomar a sua actividade”.

Sobre o trabalho da ERT e da Agência, referiu que tem sido “acompanhar as empresas e os empresários, embora a Entidade Regional não tenha mecanismos próprios do ponto de vista financeiro para ajudar as empresas. A ARPTA já é diferente, é uma Associação privada”.

Sobre o que é necessário para o futuro próximo, Vitor Silva sublinha que “o fundamental é garantir que as empresas não fechem as portas, mesmo aquelas que possam encerrar temporariamente, como aconteceu com os restaurantes. Estes tiveram mesmo que encerrar, os hotéis não foram obrigados a isso, mas muitos que viviam só do turismo encerraram, outros não”.

Em relação à retoma, o presidente da ERT adiantou que “o turismo já retomou, mas, sem os fluxos normais, nomeadamente o internacional, que está praticamente parado e isso era importante, embora no nosso território represente 1/3 em termos de dormidas, 2/3 são o mercado nacional”. E acrescenta que “tanto no verão de 2020, como este, em termos de residentes em Portugal, foi mais ou menos a mesma coisa. Este ano os indicadores que temos dizem exactamente o mesmo”. E reforça, “se não acontecer nenhuma desgraça em termos de pandemia, no que se refere a residentes, vamos ter um ano melhor que 2020. No entanto, no conjunto do ano, vai ser bastante inferior ao que tínhamos em 2019, tendo em conta o mercado internacional”. E salienta que “para o resto do ano, nós esperamos ter em termos de residentes e no global, um ano, aqui, no Alentejo, um pouco melhor do que tivemos, mas com perdas enormes em relação a 2019”.

Segundo os dados do INE, a Região do Alentejo, foi a que sofreu menos quebra no turismo, Vítor Silva, confirma e disse que “dentro da desgraça, que foi comum a todos, mesmo assim, fomos os que menos sofreram. Os cinco primeiros meses do ano, segundo o Instituto Nacional de Estatística, no global, estamos com os mesmos valores do ano transacto”. E sublinha; “Somos a única região do País, que não está ainda a perder em relação a 2020. Os portugueses não puderam sair de Portugal e grande parte deles, vieram para o Alentejo. Já vinham, já tínhamos tradicionalmente muitos portugueses a virem para cá no verão. Neste momento não há nada barato nesta região, a procura é superior à oferta”. Esta situação mostra o crescimento do turismo na região.

Sobre o que está pensado para o ano, refere que “estamos sempre presentes nos mercados, para que logo que a situação o permita, estarmos em condições de receber as pessoas”. Em termos de Plano de Actividades afirmou que “a Entidade Regional está agora a elaborar o Plano, realizando algumas reuniões internas e ouvindo as associações empresariais, os agentes, para fazer um Plano de Actividades, que reflicta aquilo que também são as ideias e os anseios das pessoas que trabalham em turismo e que cá vivem. Estamos a elaborar ideias”. Sobre a Agência, adiantou que a mesma “vai ter uma nova campanha, para os mercados internacionais, que vai ser baseada na Luz do Alentejo. Depois declina para tudo, para ter residências, escritores, jornalistas, para escreverem sobre a luz que encontraram no Alentejo. Falar da luz e até dos nossos vinhos, uma luz impressionante. Uma campanha que foi feita internamente, nem contractámos, como é costume, uma empresa para o fazer”.

Para o responsável pela ERT, “os próximos anos em Portugal, vão ser balizados, por dois documentos estratégicos, que não são da nossa responsabilidade, mas sim do Turismo de Portugal. Um é o Turismo Sustentável 2020/2023, que vai dominar a actividade económica e não só a área do turismo e o outro é o Plano de Retoma do Turismo, que se chama ‘Construir o Futuro’, que já foi apresentado publicamente”. E acrescenta que “o Plano de Retoma do Turismo até 2027, tem verbas suficientes, para que de facto, a retoma da actividade turística se possa dar”.

No que se refere aos apoios financeiros, quer da ERT, quer da ARPTA, Vítor Silva explicou que “a Entidade tem duas fontes de financiamento: o Orçamento Geral do Estado e as candidaturas aos Fundos Comunitários. A Agência tem um leque mais diversificado, a contratualização com o Turismo de Portugal, em que de 3 em 3 anos temos que fazer prova de que somos representativos de todos os sectores de turismo. Somos transversais a toda a actividade turística. Outra parte do apoio financeiro vem das candidaturas que fazemos aos fundos europeus, que podem ser feitas directamente à CCDRA (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo) e das cotas dos associados, porque somos uma associação”. E acrescenta que “os associados pagam uma cota, consoante a metodologia do seu negócio e o volume do mesmo. Um hotel com 100 quartos, não paga o mesmo que um que só tenha 10. Há escalões”.

Sobre os associados salientou ainda que “também temos um tipo de associados, que não tínhamos, e não queríamos ter, mas que hoje nos agrada que entrem para a Agência, que são os municípios.  Temos cerca de uma dezena de autarquias, gostava de ter mais. São muito importantes para o turismo, o município de Beja é nosso associado, a autarquia de Moura não é, mas a de Serpa é e tem ganho muito com isso”.

Ainda no que às autarquias diz respeito, Vítor Silva sublinha que “prestamos serviços a várias Câmaras, que são nossas associadas, por exemplo: há um município que consegue fazer uma candidatura à internacionalização do seu território e dos seus produtos. Sem o nosso apoio, nunca tem, nem capacidade, nem meios para fazer a promoção internacional”. E explica: “a autarquia pede à Agência e faz um contrato, embora seja associada, mas este é um trabalho extra, fazemos um plano de internacionalização para os produtos daquele território, integrado no Plano Geral de Promoção do Alentejo. Em todos os países importantes para o turismo português, há uma delegação do Turismo de Portugal”.

O investimento no Alentejo não parou e o responsável da ERT e da ARPTA salienta que “é muito importante, não ter parado, porque nós há uns anos tínhamos um hotel de 5 estrelas e agora temos uma dúzia. A oferta não aumentou só em quantidade, mas também em qualidade”. E adianta que “a Agência, neste ano e meio que levamos de pandemia, o investimento propriamente dito, não diminuiu, antes pelo contrário. Continuamos com intenções de investir, que se vão concretizando”. Vítor Silva refere ainda que “no turismo é muito demorado concretizar uma obra, por causa das exigências, burocracia, ambiente, ver se se enquadra no PDM, qual a área de edificado que se pode ter, o empresário tem que se debater com isso tudo e demora muito tempo”. E sublinha que “no Alojamento Local, é a própria Câmara que licencia, mas acho que este tipo de alojamento deve tentar caminhar para o estabelecimento certificado pelo Turismo de Portugal. Foi importante para tirar muitos alojamentos que estavam clandestinos e assim passaram a estar legais”.

Sobre os alojamentos na nossa região, diz que “o mais icónico, além das 5 estrelas, é o Turismo Rural, que neste momento representa 20% das nossas camas e de uma maneira geral é de muito boa qualidade”.

Estando a Barragem de Alqueva aqui tão perto com as suas várias praias fluviais, a Planície quis saber qual a importância destas praias para o turismo da região. Vítor Silva explanou a sua ideia, dizendo que “as praias fluviais de uma maneira geral, servem fundamentalmente, (na minha perspectiva, pois os números dirão se é assim ou não), para as populações locais. Acho que o papel de qualquer autarquia, de um dirigente local, é em primeiro lugar para os seus munícipes, para melhorar a sua qualidade de vida”. E acrescenta que “têm aberto nos últimos anos muitas praias fluviais, verifico que a sua qualidade é muito boa, mas isso é uma mais valia para as populações do interior. Acrescenta valor à oferta turística de um determinado território, mas não é a questão fundamental para o turismo”.

Os dados do Instituto Nacional de Estatística, (INE), reforçam a facto de a região do Alentejo ter sido a que menos sofreu com a situação pandémica que ainda atravessamos.

Todas as regiões registaram diminuições do número de camas disponíveis na hotelaria, com as menores reduções a verificarem-se no Alentejo (-6,5%), Norte (-10,9%) e Centro (-13,5%). O Algarve concentrava 38,6% da capacidade (camas) oferecida no território nacional, seguido da AM Lisboa (17,0%), Norte (15,8%) e Centro (13,8%).
As dormidas na hotelaria apresentaram reduções expressivas em todas as regiões. O Alentejo foi a região que registou menor decréscimo (-41,3%), enquanto nas restantes regiões se observaram diminuições superiores a 50%, com realce para a AM Lisboa (-72,3%) e RA Açores (-71,7%).
A redução do volume de negócios da actividade do turismo não decorreu apenas de um efeito quantidade. Também se assistiu em geral à redução de preços.
Registe-se, aliás, que de acordo com o Inquérito à Permanência de Hóspedes na Hotelaria e outros alojamentos nos estabelecimentos de alojamento turístico, o proveito médio por dormida diminuiu 9,4% e atingiu 41,7 euros (+3,2% em 2019).
Em 2020, os residentes em Portugal realizaram 14,4 milhões de deslocações turísticas, o que correspondeu a um decréscimo de 41,1% (+10,8% em 2019). Neste ano, 39,0% da população residente em Portugal efectuou pelo menos uma viagem turística, o que representou uma diminuição de 14,1 p.p. face a 2019, correspondendo a 4,0 milhões de indivíduos (menos 1,4 milhões de turistas em comparação com 2019).

“A Agência, vai ter uma nova campanha, para os mercados internacionais, que vai ser baseada na Luz do Alentejo. Depois declina para tudo, para ter residências, onde escritores e jornalistas podem escrever sobre a luz que encontraram no Alentejo”.

“Reativar o Turismo | Construir o Futuro”

O plano de acção “Reativar o Turismo | Construir o Futuro”, aprovado em Conselho de Ministros e apresentado pelo Ministro da Economia e Transição Digital, Pedro Siza Vieira, tem como objectivo incentivar a retoma do sector do turismo nacional. O plano pretende ser um guião orientador para o sector turístico, público e privado, cujas acções estão totalmente integradas com os objectivos do Plano de Recuperação e Resiliência e da Estratégia Portugal 2030, assegurando assim uma estratégia concertada para a retoma da economia nacional.

Enquanto principal sector exportador do país, o turismo tem um contributo de peso para a recuperação do país, para a sua modernização e para o reforço da sua competitividade a nível europeu. Pelas suas características e necessidade de interacção com outras dimensões da economia (e.g. imobiliário, saúde, agricultura, vinho, indústria, transportes, comércio, serviços), o sector do turismo é particularmente dotado para alavancar o desenvolvimento global da economia portuguesa. 

Tendo as pessoas como centro da estratégia, são 4 eixos de actuação – apoiar empresas, fomentar segurança, gerar negócio e construir futuro – e é composto por ações especificas que, a curto, médio e longo prazo, permitirão transformar o sector e posicioná-lo num patamar superior de criação de valor, contribuindo de forma expressiva para o crescimento do PIB e para uma distribuição mais justa da riqueza. Este plano põe como meta ultrapassar os 27MM€ de receitas turísticas em 2027.

Turismo +Sustentável 2020-2023

O Plano Turismo +Sustentável 2020-2023 é o referencial estratégico, participativo e dinâmico, alargado e criativo, através do qual o Turismo de Portugal assume a responsabilidade de mobilizar os agentes e a sociedade para a promoção da sustentabilidade no Turismo em Portugal, nos próximos três anos.

O Turismo de Portugal promoveu uma fase de consulta pública do plano que decorreu entre 26 de Outubro de 2020 e 26 de Janeiro de 2021, e da qual resultaram mais de 100 participações provenientes dos agentes do sector, entidades públicas, associações, cidadãs e cidadãos.

Princípios orientadores do Plano

– Contribuir para alcançar as metas da Estratégia Turismo 2027

– Reforçar o papel do turismo nos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas

– Promover a transição energética e a agenda para a economia circular das empresas turísticas

– Envolver os stakeholders do sector num compromisso conjunto de transformação da oferta e sustentabilidade do destino

– Estimular uma mudança de atitude em toda a cadeia de valor.

Vítor Augusto Fernandez da Silva nasceu em Beja, em Janeiro de 1949. Formou-se em Engenharia Química, no Instituto Superior Técnico, mas nunca exerceu. Teve uma vida política ativa durante e após a Revolução de Abril, tendo sido um dos fundadores do Movimento de Esquerda Socialista. Foi professor e delegado do INATEL para o distrito de Beja. Ganhou as eleições para a presidência da região de Turismo Planície Dourada em 2003, cargo que exerceu até à extinção da entidade. Foi membro fundador da Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo em 2004, sendo o presidente da agência desde 2010. Em 2019, foi reeleito presidente da direção da Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo (ARPTA)

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