RIBEIRA DA PERNA SECA – ANTES E DEPOIS

RIBEIRA DA PERNA SECA – ANTES E DEPOIS

No dia 29 de novembro de 2020 choveu bastante na serra. A meio da tarde, a ribeira da Perna Seca, no Sobral da Adiça, transbordou pontualmente das margens e tocou algumas casas mais próximas ao curso de água. Não foi a primeira grande cheia a ter lugar, desde que a obra de regularização da ribeira foi começada. Na noite de 13 de novembro de 2014 uma chuvada semelhante tinha posto à prova a capacidade de escoamento da obra. Estive lá um pouco antes da meia-noite e tenho fotografias que o demonstram.

Conheço muito bem este processo. Tive-o em mãos entre outubro de 2005 e dezembro de 2016. Mais de uma década de labuta, até se conseguir resolver um problema que poderia assumir proporções ainda mais graves. Como teria ocorrido em 2014 e no final do passado mês de novembro.

Um dos momentos mais marcantes do meu percurso autárquico, e da minha vida, ocorreu na noite de 29 de dezembro de 2009. A ribeira transbordara, uma vez mais. O acesso principal à aldeia estava cortado e tivémos de entrar, o José Maria Pós-de-Mina e eu, pela Estrada dos Carapinhais, num percurso mais longo, por entre a escuridão e a chuva que ainda caía. Preparávamo-nos para ouvir um coro de reclamações, à chegada. O que aconteceu foi, para nós, muito pior. Havia um terrível silêncio, um misto de desalento e de tristeza se apossara dos moradores que vivem aqui nesta zona. Ouvia-se apenas aquele rumor da água a correr depressa, quando a ribeira começava a esvaziar lentamente.

No dia seguinte, houve uma brevíssima reunião. O José Maria disse-me apenas “já percebeste que temos mesmo de avançar, com ou sem financiamento, certo?”. Sim, tinha percebido isso claramente. Esperavam-nos pela frente sete duros anos.

No jornal A Planície de 1.2.2010 a secção de Moura do Partido Socialista declarava, sem pejo nem que vergonha, que “esta obra não é da responsabilidade da Administração Central”. Claro que avançámos e não vou aqui estar a historiar todo este processo. O dia 18 de dezembro de 2016, quando a obra foi formalmente inaugurada foi dos mais significativos e decisivos da minha vida pessoal e política.

Parece-me relevante este regresso ao passado – nem por isso assim tão distante –, pelas seguintes razões:

  1. Ai de nós se esperarmos por milagres e que sejam outros a vir resolver os nossos problemas;
  2. Ai de nós se não combatermos e não resolvermos e não promovermos soluções que vão além do papel;
  3. As soluções e a força estão em nós. Em todos nós. Não há salvadores da pátria, nem profetas nem homens ou mulheres providenciais;
  4. Somos nós, com o nosso empenho, o nosso sentido de luta e a nossa capacidade de concretização. Somos nós e, como diz um velho amigo meu, a “infinita liberdade do espírito”.

É essa a minha firme convicção. E tal como se ultrapassou o problema da Ribeira da Perna Seca (a ribeira transbordou um pouco no dia 29.11.2020? nem consigo imaginar o que se teria passado sem aquela obra…) se ultrapassaram outros e se podem deixar para trás muitos mais. Com trabalho, com perseverança, com tenacidade.

Recordo um poema de Eugénio da Andrade “se as mãos pudessem (as tuas, / as minhas) rasgar no nevoeiro, / entrar na luz a prumo”. A grande diferença é que a palavra aqui nos cabe e quem tem de rasgar o nevoeiro somos nós. Agora e em cada momento das nossas vidas.