Reportagem – “Se não houvesse feirantes, não havia mercados”

Reportagem – “Se não houvesse feirantes, não havia mercados”

Foi a partir do dia 5 de Setembro de 2020 que voltaram a ser realizados os habituais mercados mensais no Parque Municipal de Feiras e Exposições de Moura.

No entanto, por forma a dar cumprimento às recomendações da Direcção-Geral da Saúde e preservar a segurança de todos, a realização de mercados está obedecer a um conjunto de novas regras, entre elas: O uso de máscara e desinfecção das mãos é obrigatório; o número de entrada e permanência de pessoas será controlado; a permanência no espaço onde se realiza o mercado deve resumir-se ao tempo estritamente necessário para se proceder às compras, num máximo de 1 Hora.

“Se não houvesse feirantes, não havia mercados”

O Mercado Mensal realiza-se nos primeiros Sábados de cada mês, no Parque Municipal de Feiras e Exposições de Moura.

Moura é uma pequena cidade alentejana, situada no distrito de Beja, com 8.419 habitantes (2011). Uma das suas tradições é a realização do Mercado Mensal, que conta com a presença de vários feirantes e clientes, oriundos dos mais variados locais.

Ao entrar no Parque de Feiras e Exposições, sente-se de imediato a azáfama do mercado. Os feirantes utilizam várias técnicas para chamar a atenção dos clientes: alguns colocam música e outros apregoam através de megafones. Calçado, roupas, acessórios de moda, bens alimentares, utensílios de cozinha e até pintos vivos, são algumas das mercadorias que é possível encontrar.

Vanessa Martins é feirante há 15 anos. Vive em Mafra, mas todos os meses se desloca até Moura para vender no mercado, acompanhada pelo seu marido. Na sua barraca, encontram-se uma grande variedade de sabores, como queijos, enchidos e até mesmo azeite.

Comissão de Festas de Moura

A comissão de festas, também tem um lugar reservado no mercado. João Bule, membro do departamento de tesouraria da Comissão de Festas de Moura, considera que a participação nos mercados “é uma forma de angariar dinheiro para realizar as festas da cidade, em honra de Nossa Senhora do Carmo”. Nesta barraca, é possível comprar frangos assados, bifanas, sardinhas e bebidas.

Outra barraca onde é possível comprar comida, é aquela em que trabalha Tânia Galego. Não é feirante, contundo, há 15 anos que começou a vender nas feiras e nos mercados, por conta de outrem. “Venho ajudar uma senhora que tem uma rulote onde vende coisas de comida, como bifanas, sandes e bebidas”, explica.

Clotilde Paulos

Mas não é só de comida que se trata o mercado de Moura. A barraca dos brinquedos também está presente para fazer as delícias dos mais novos. “O mais barato é 3€ e o mais caro é 120€”, afirma a vendedora Clotilde Paulos, para explicar a variedade de artigos que tem disponíveis para venda.

Patrícia Rodrigues

Além dos brinquedos, o “cantar” dos pintos vivos também chama a atenção dos mais pequenos: “As crianças gostam de vir ver os frangos vivos ao mercado e até é educativo, para aprenderem que o frango não nasce embalado, como o leite não nasce nos pacotes. Os miúdos adoram, entretêm-se imenso”, refere Patrícia Rodrigues, estudante de ciências da nutrição, que acompanha os pais nos mercados desde pequena.

As dificuldades e as vantagens de ser feirante

Apesar de haver uma grande variedade de artigos, o mercado já teve mais feirantes e mais clientes daqueles que tem atualmente: “Cada vez há menos adesão aos mercados e às feiras. Há menos clientes e menos feirantes”, afirma Patrícia Rodrigues.

“Antigamente as pessoas tinham mais poder de compra. Agora vende-se o que é mais barato”, diz Vanessa Martins, demonstrando a preocupação dos feirantes em relação ao facto do número de vendas estar a diminuir.

Além das dificuldades financeiras, as exigências da própria profissão de feirante também representam um desafio constante na vida destas pessoas, como o facto de se levantarem bastante cedo para trabalharem ao ar livre, quer faça chuva ou sol. Clotilde Paulos, explica como é a sua rotina diária: “Nós levantamo-nos às quatro da manhã e só voltamos para casa às duas ou três da tarde. Às vezes nem almoçamos, porque quando estamos na feira não temos fome, nem frio, nem sono, nem nada. É feira é feira ou mercado é mercado. Não pensamos em mais nada.”

Mas a vida de feirante não é só feita de dificuldades. Todas as pessoas entrevistadas, demonstraram uma grande paixão pela profissão que escolheram para o resto das suas vidas. As entrevistas eram interrompidas constantemente para poderem cumprimentar e dar antenção aos seus clientes. E no olhar dos feirantes, via-se a paixão com que falavam dos artigos das suas barracas. “O nosso cliente também é nosso amigo”, destaca Clotilde Paulos.

“Eu era estudante de direito e deixei a escola quando casei. O meu marido já era feirante e foi a profissão que nós abraçámos os dois”, conta Vanessa Martins. Refere também que nunca se arrependeu da decisão que tomou e que jamais trocaria a sua profissão por outra qualquer.

Outro aspeto positivo de ser feirante é o facto de se trabalhar por conta própria. Para Clotilde Paulos, esta profissão é um sinónimo de liberdade: “Isto é uma vida muito livre. Temos muita liberdade, porque nós não temos patrão. Não temos horários a cumprir e andamos livres que nem um passarinho. E eu gosto de ser pássaro”.

O des(respeito) pela profissão de feirante

Embora os feirantes demonstrem uma grande paixão pelo seu trabalho, a realidade é que ainda se deparam com o desafio de lidar com o preconceito da sociedade em relação a esta profissão.

“Na zona do Alentejo somos tendeiros e ciganos, na zona de Lisboa somos feirantes e é uma profissão respeitada como todas as outras. Aqui nós entramos no supermercado com o avental metido e vão atrás de nós para ver se não roubamos”, refere Vanessa Martins, para explicar de que forma já se sentiu alvo de preconceito.

A experiência de Clotilde Paulos é diferente. Apesar de saber que existem pessoas que têm preconceito, considera-se respeitada pela sociedade: “Eu sou respeitada. Tenho muitas amigas de todas as áreas e sempre me respeitaram. Todas as profissões merecem respeito porque todas fazem falta. Se não houvesse feirantes, não havia mercados”.

Texto: Sofia Sousa Costa

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